Vanderlei Cordeiro de Lima: a maratona continua

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Vanderlei Cordeiro de Lima relembra a época em que trabalhou como bóia-fria

Há um ano, na Corrida de São Silvestre, Vanderlei Cordeiro de Lima se retirou das provas profissionais de atletismo, encerrando uma carreira de esportista que ficará na memória dos brasileiros. Em especial pelas Olimpíadas de Atenas, em que liderou até quase o final da prova, quando um padre irlandês fantasiado invadiu a pista e empurrou Vanderlei para a calçada. Vanderlei, que tinha boa vantagem, acabou chegando em terceiro lugar, mas se tornou o herói da maratona.

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Vanderlei sendo barrado pelo padre irlandês Cornelius Horan em Atenas – 2004

Vanderlei, quando garoto, trabalhava como bóia-fria no interior do Paraná e corria pelos campos para se divertir. Foi descoberto aos 11 anos pelo professor de Educação Física Arnei César Moreira, que o convidou a participar dos jogos interescolares. Levou a Escola Estadual Castelo Branco à vitória e não parou mais de treinar.

30 anos mais tarde, sua aposentadoria não significa estar longe das maratonas. Criou o Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima, para que outras crianças também descubram e sejam descobertas para o atletismo e saiam de condições precárias de educação e trabalho infantil. O projeto busca e desenvolve o talento em corridas de velocidade, meio fundo, fundo, saltos e arremessos, dando oportunidade para que a criança possa se revelar tanto atlética como socialmente, contribuindo assim para o desenvolvimento do atletismo regional e nacional.

Mas, se a criança não se tornar atleta, não há problema, o objetivo principal do Instituto é usar o esporte como uma ferramenta para o desenvolvimento pessoal de cada uma das crianças atendidas. Por isso, a ideia é que as crianças tenham contato com idiomas, artes, atividades culturais, aulas de educação sexual, meio ambiente, e oficinas profissionalizantes.

Atualmente, o IVCL possui um projeto em Campinas (SP), nas dependências da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A escolinha de atletismo, conhecida como ORCAMPI, atende aproximadamente 120 crianças por ano, com idade entre 11 e 18 anos, vindas das camadas mais carentes e de escolas públicas da Região Metropolitana de Campinas.

Quando se é um vencedor, não é um obstáculo que vai determinar sua parada. Como vimos no exemplo de Vanderlei, uma medalha era apenas o começo de sua contribuição para o esporte brasileiro.

Publicado em 2 janeiro , 2010 por Juliana Garcia Sales

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Taco, o críquete das ruas

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Brincadeira de origem nobre – Foto: Vinicius Portelinha

Você joga ou já jogou taco? Você sabia que esse jogo das ruas, sem regra oficial, passado de geração a geração oralmente, tem origem num esporte considerado nobre?

Na primeira vez que vi pela televisão trechos de um jogo de críquete, o qual já tinha ouvido falar que era um esporte nobre inglês, achei muito parecido com algo que já tinha visto antes. Ah, era aquilo que a molecada jogava no meio da rua, com pedaços de madeira, bola de tênis e latas velhas de óleo ou de refrigerante!

Sim, o jogo, além de lembrar o beisebol e suas rebatidas, tem princípios muito semelhantes aos do críquete. Os objetivos do taco são os mesmos do esporte inglês: derrubar as estacas / casinhas do adversário e marcar mais corridas que o adversário. Na realidade, quem ganha é quem protege melhor suas casas. As maiores diferenças são no número de jogadores e no espaço para jogar. No críquete, uma equipe tem 11 jogadores espalhados por um campo oval ou circular de 150m de diâmetro. No taco, bastam duas duplas e o espaço que comporte o lugar das casas, do rebatedor e do arremessador – o equivalente ao pitch do campo de críquete – e o restante do campo é do tamanho da rua, quintal, pátio. E, claro, quem joga taco não necessita daquele aparato (luvas, capacete, protetor escrotal) que o jogador de críquete usa.

Resumo das regras:

  1. O arremessador tenta derrubar a casa/estaca do adversário, e com isso tenta tomar o taco.
  2. Quem está com o taco tenta rebater o arremesso e proteger sua casinha;
  3. Quando a bola é rebatida, aquele da dupla adversária que não arremessou tenta apanhar a bola;
  4. Enquanto isso, os protetores das casinhas correm trocando de lado e batem os bastões (as batidas marcam os pontos da equipe com o taco) prestando atenção para voltar ao posto antes que o adversário volte e tente derrubar a casa ou queimar o jogador;
  5. Quem está com o taco tem clara vantagem, já que é quem leva os pontos das corridas; por isso, quem arremessa tem que fazer de tudo para tomar o taco.

É engraçado como um jogo tão… igual ao críquete seja amplamente divulgado no Brasil e o próprio críquete não ser nada conhecido. O críquete só tem popularidade na Inglaterra, onde nasceu, na Índia e no Paquistão. Os times da Austrália, Sri Lanka e África do Sul também se destacam. Aqui no Brasil é considerado um esporte de elite, com pouco mais de 200 praticantes, segundo a revista Mundo Estranho.

Já o taco é tão espalhado pelo Brasil que tem até regionalismos, como regras e nomes diferentes em cada Estado. O taco também é chamado de bete, bétia, bets, jogo de casinha, bete-ombro, bete-lombo, lesca. O nome bete (ou bétia) tem origens controversas, como a história que diz que ingleses que trabalhavam no Brasil numa companhia de papel quiseram homenagear a Rainha Elizabeth; ou que esse nome remetia a apostas (bets, em inglês). Eu acredito, porém, que esse nome provenha dos tacos (bats) do críquete.

O taco infelizmente está saindo de nossas ruas, cada vez mais perigosas. Pouco tempo atrás, uma turminha jogava taco aqui na minha rua, isso foi até colocarem uma linha de ônibus aqui – mesmo a rua sendo estreita e totalmente residencial. Ao menos, na rua de trás ainda se joga pelada todo dia. Enfim, os jogos dos adolescentes estão cada vez mais confinados.

Devemos ressaltar aqui que o jogo de bétia pode ter valores pedagógicos inestimáveis, já que é um jogo divertido e que acrescenta culturalmente, e pode ser facilmente aplicado nas escolas, inclusive para faixas etárias mais baixas. Quem sabe, o bets não saia das ruas para morar nas escolas? Há educadores que estão implantando o taco no currículo da educação física, como o premiado professor José Carlos dos Santos.

Mas, pelo que meu irmão me conta, a bétia não vai sumir: “ora, quem não gosta de jogar taco?”, diz.

Publicado em 30 setembro , 2009 por Juliana Garcia Sales

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Na escola só dá handebol!

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Lidiane Faria (sentada, ao meio) e seu time, 2000. Foto: acervo pessoal

Você sabia que o handebol é o esporte mais praticado nas escolas brasileiras? É um esporte que necessita de poucos recursos: uma quadra (nem sempre com medidas oficiais) com dois gols e uma bola – os mesmos requisitos para se jogar futsal. É um esporte com regras simples, rápido, divertido, e que desperta o interesse de meninas e meninos. Essas características tornam o handebol amplamente aceito e relativamente fácil de implantar em escolas públicas e particulares.

Até a década de 1960, o handebol era conhecido somente em São Paulo. Mas começou a se espalhar quando o professor francês Auguste Listello, em 1954, no Curso Internacional de Santos, mostrou o esporte a professores de outros estados. Assim, o Handebol foi introduzido em escolas por todo o país. Em 1971, o MEC (Ministério de Esporte e Cultura) incluiu o handebol entre as modalidades dos Jogos Estudantis e Jogos Universitários Brasileiros (JEBs e JUBs), devido à popularidade crescente nas escolas.

É na escola que pode nascer um talento ou um apaixonado pelo esporte, e assim, o Brasil, que ainda não é uma potência em handebol, vem crescendo na modalidade. E pra quem acha que o handebol é para as meninas, a seleção masculina vem obtendo ótimos resultados e já é bicampeã pan-americana (Santo Domingo 2003 e Rio de Janeiro 2007). É de times escolares que vem grande parte dos jogadores da seleção, garante o presidente da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) Manuel Luiz Oliveira.

Conversei com uma apaixonada por handebol, a relações públicas Lidiane Faria. Sim, o primeiro contato que ela teve com o handebol foi na escola, aos nove anos de idade. Mas, apesar de ter sido descoberta por uma professora aos 11 anos, aos 13 é que foi tentar a peneira da Escola de Handebol da Metodista. Não passou como jogadora de linha, mas foi persistente e entrou como goleira. Nessa época, jogou por três escolas diferentes, a que estudava em São Paulo, a Metodista em São Bernardo e o Colégio Arbos em Santo André, ufa!

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Lidiane Faria e o esporte da sua vida. Fotos: acervo pessoal

Lidiane considera que não é papel da escola tornar o aluno um apaixonado por esporte, mas incentivar a prática e mostrar que o esporte é um caminho profissional viável. “Dizem que o esporte é saúde, mas raramente passam disso, e nem sempre há o ensino teórico das regras”, declara Lidiane.

Porém, é preciso insistir no desenvolvimento pedagógico do esporte. Mesmo que não se torne um profissional, segundo Lidiane, o handebol traz ao estudante benefícios como o trabalho em equipe, respeito ao adversário, disciplina, coragem e persistência. “O handebol na idade escolar é bacana porque trabalha toda a musculatura da criança. E por ser um esporte com bastante contato, respeito ao adversário é fundamental”, afirma.

Por falar em crianças…

O mini-handebol

O mini-handebol é uma forma de mostrar a crianças os fundamentos do handebol, tirando o peso de regras mais avançadas e deixando de lado esquemas táticos. Essa maneira de jogar o handebol permite que escolas e comunidades com pouquíssimos recursos tenham acesso ao conhecimento da modalidade. Permite também a adaptação de regras conforme a faixa etária.

A CBHb leva o Projeto Petrobras Mini-Hand de Iniciação Esportiva a todo o Brasil com os objetivos de:

  • Promover o esporte a quem tem pouco acesso a lazer, e auxiliar escolas e comunidades mais carentes no fomento ao esporte;
  • Desenvolver a criança social, física e intelectualmente;
  • Manter o handebol como o esporte olímpico mais praticado nas escolas de todo o Brasil. ;)

Os campeonatos de mini-handebol podem se transformar em festivais, visto que o objetivo do mini-hand não é a competitividade, mas a socialização e integração das crianças. E aí, a imaginação é o limite. É possível criar eventos multidisciplinares, evocando várias matérias do currículo escolar, como línguas, geografia e ciências.

Mais um grande passo na popularização do handebol, que já tem lugar no coração de quem leva na esportiva.

Publicado em 23 setembro , 2009 por Juliana Garcia Sales

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Daniel Dias, o Phelps das Paraolimpíadas

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Daniel Dias e sua primeira medalha paraolímpica. Foto: Divulgação

Sabemos que o esporte brasileiro carece de mais incentivo, apoio governamental e privado. E que dirá o esporte paraolímpico, podemos pensar, que mal aparece nos noticiários esportivos?

Pois saiba que, mesmo com pouco apoio, o Brasil já tem um desempenho muito melhor em Paraolimpíadas que nas Olimpíadas tradicionais. Nas Paraolimpíadas de Pequim, em 2008, foram 47 medalhas para o Brasil (sendo 16 de ouro), já a delegação olímpica brasileira conquistou 15 medalhas.

Um atleta que colaborou com esses belos números foi Daniel Dias. Depois de mostrar a que veio no Parapan de 2007 no Rio de Janeiro, conquistou nove medalhas na natação em Pequim 2008 (quatro de ouro, quatro de prata, uma de bronze), mesmo número de Michael Phelps nos jogos tradicionais. Neste dia 7 de setembro de 2009, Daniel desfilou em Brasília comemorando um ano de seu primeiro ouro paraolímpico.

Mesmo tendo começado a nadar em 2005, Daniel já conseguiu chegar ao nível do recordista brasileiro Clodoaldo Silva, o “Tubarão Paraolímpico”, que conquistara sete medalhas nos Jogos Paraolímpicos de Atenas 2004 (seis de ouro).

Daniel Dias nasceu em 1988, com malformação congênita nos braços e na perna direita. Seus pais sempre se esforçaram para que Daniel fosse incluído pela sociedade, como alguém capaz e independente. Daniel sempre estudou em escolas comuns, onde sofreu muito preconceito. Seu pai, Paulo, resolveu levá-lo à ADD (Associação Desportiva para Deficientes), pensando nos benefícios físicos e psicológicos que o esporte traria ao filho.

Depois de aprender todos os estilos na ADD, Daniel passou a frequentar uma academia em Bragança Paulista (SP), cidade próxima a Camanducaia (MG), onde vivia. “Passei dois anos viajando todos os dias para treinar. Frequentava a escola de manhã. Depois, pegava o ônibus na rodoviária. A viagem durava uma hora e meia”, afirmou Daniel à revista Sentidos.

A recompensa pelo esforço veio em forma de vitórias, recordes e medalhas. Conseguiu índice para o Mundial da África do Sul em 2006, onde faturou 3 medalhas de ouro e 2 de prata. No mesmo ano, bateu o recorde mundial dos 200m, durante as disputas do Circuito Loterias Caixa. Nos Jogos Parapanamericanos do Rio, em 2007, veio a consagração: oito ouros em oito provas disputadas.

Em palestra para a Feira Guia do Estudante, Daniel declarou que sua maior conquista foi o prêmio de melhor atleta do mundo, em 2008, uma espécie de Oscar do esporte. “Eu fui o quarto esportista brasileiro a ganhar o prêmio e o primeiro atleta deficiente – os outros ganhadores foram os jogadores de futebol Pelé e Ronaldo e o skatista Bob Burnquist”.

Hoje, Daniel cursa a faculdade de Educação Física USF (Universidade São Francisco). Pretende, no futuro, cursar Engenharia Mecatrônica. Além disso, Daniel é baterista da banda da igreja a que frequenta.

Sobre apoio, Daniel diz que “hoje em dia as coisas estão mais fáceis, por causa dos meus patrocínios, mas antes era bem difícil, eu tinha apenas o apoio do meu pai, que pagava para eu treinar. Agora posso ficar mais tranquilo quanto a isso. O que dificulta mesmo é a falta de divulgação, que acontece mesmo só de quatro em quatro anos.”

Como vemos, Daniel é um exemplo de que os atletas paraolímpicos superam suas deficiências físicas e as deficiências de um sistema que pouco incentiva o atleta amador brasileiro. E é prova de que vale a pena colaborar e tentar mudar o país por meio do esporte.

Publicado em 21 setembro , 2009 por Juliana Garcia Sales

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