Futebol e Brasileiro: um caso de amor e ódio

Imagem: Eduardo Marquetti

Sabe, eu tenho pena das mães brasileiras.  Acredito que a causa seja a água, ou talvez o ar, mas os bebês brasileiros devem ser os que mais chutam durante a gestação.

Após o nascimento, vem a pressão dos pais e avós para a manutenção do legado familiar no futebol. Seus times sempre são e serão os melhores e não se pode correr o risco de ter um vira casaca em casa. Uniformes, bolas, quadros, tudo vale nessa hora, para adquirirmos a confiança e o amor dos rebentos ao esquadrão da família.

O próximo passo é ganhar sua primeira bola, geralmente macia de pelúcia ou algum outro tecido.  E, apesar de não termos essa noção ainda, é nossa primeira paixão, nosso primeiro objeto de ciúme.  Com o passar do tempo, ainda com dificuldades de andar, já ensaiamos nossos primeiros chutes – mesmo que isso signifique incontáveis quedas.

Chega a primeira Copa do Mundo, que pode ser a segunda ou a terceira, mas para fins de recordação a primeira Copa do Mundo que um brasileiro realmente acompanha é emocionante e inesquecível. O País fica verde e amarelo, você vê a esperança na cara dos milhões de técnicos (droga, usei um jargão esportivo), e no dia dos jogos todos param e acompanham nossos 22 guerreiros em mais uma disputa. Vencida a batalha, cabe a todo brasileiro esperar o próximo embate e o próximo…

Tenho comigo a teoria de que uma criança só se apaixona completamente pelo futebol quando visita um estádio pela primeira vez. É essencial, então, que o time dos pais vença. Assim, “garantimos que nosso legado será mantido”. Para a criança, porém, o primeiro jogo de futebol no estádio é uma acúmulo de informações e novidades para uma cabecinha excitada com o que está prestes a acontecer. A preparação em casa, as orientações da mãe para o pai, a vestir a camisa que o pai fez questão e comprar para evento tão especial, o lanche. O caminho para o estádio que parece ser o caminho mais comprido da nossa vida, a bilheteria (quando eu era criança o ingresso era facilmente comprado na hora do jogo). Entrar naquele templo de concreto é inesquecível, torcedores, vendedores, policiais militares fazendo a segurança (cheguei a pensar em ser PM para poder ver “todos os jogos de graça” – santa inocência). O árbitro apita, o coração vai a mil – COMEÇOU -, os gritos da torcida, as bandeiras tremulando (sim, quando eu era criança, havia bandeirolas e bandeirões, que eram agitados freneticamente durante o jogo, com seus mastros gigantescos). Finalmente o primeiro gol, de falta, de fora da área, contra, de penalty… não importa. O primeiro gol visto ao vivo está marcado na mente de todo brasileiro.

Futebol na veia do torcedorzinho garantido, vêm os ídolos. Durante nossa vida, temos muitos ídolos, mas o primeiro ídolo a gente não esquece e não necessariamente esse ídolo é jogador do nosso time. A identificação com um ídolo tem a ver com a posição em que joga, seu carisma, o sucesso que faz e, principalmente, a competência ou não do time da criança. Os candidatos a ídolos são geralmente os atacantes, ainda que recentemente a garotada tenha demonstrado identificação com os goleiros.

Alguns anos depois, vem a paixão por jogar futebol e a escola é o melhor agente para isso. Futsal, o esporte mais praticado no Brasil, normalmente é unanimidade nas escolhas dos alunos e o momento da escolha dos times é de apreensão. Além de não ser o último, todos querem ser escolhidos pelo time do craque da escola e poder fazer tabelinha com ele.

O tempo passa e o brasileiro apaixonado por futebol renova o ciclo: vira pai e quer passar seus ensinamentos para seus herdeiros. O primeiro jogo, o hino do clube, a primeira camisa, o primeiro título. Tudo corre normalmente bem até a adolescência, quando nossa Julieta encontra um tal de Romeu (tá, outro lugar comum) e nos preocupamos com o futuro dessa relação.  Nossa Julieta foi muito bem educada e não irá virar a casaca, mas casar com um Montecchio??? É… quando o casamento entre Montecchios e Capuletos acontece, só resta ao avô Capuleto esperar, e seu legado corre um sério risco. A criança tende a seguir o legado do pai, restando ao avô ou o sentimento de fracasso ou levar na esportiva, e esperar o neto crescer, para poder curtir quando o time dele perder.

Minha história ainda está sendo escrita, e tomarei cuidado para minha pequena se torne uma Capuleto Capuleto e não uma Capuleto Montecchio.

Nota do autor: o comportamento padrão do brasileiro foi baseado na minha história, na de meus tios, amigos, primos, e pode não coincidir com a SUA história. Conte-nos como ele seria nos comentários abaixo:

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Publicado em 20 julho , 2009 por Luiz Ricardo Cobra

Por Pedrovisky, em 22 julho 17:58

Excelente post, Cobra. O quarto parágrafo realmente é a mais pura verdade. É na primeira Copa do Mundo “relembrável” que descobrimos o que é a magia do futebol. Comigo foi assim também.

Quanto a escolha do time, realmente não me lembro se foi algo natural ou se teve pressão da família (100% dos meus familiares torcem pelo Flamengo), mas me tornei flamenguista e sou feliz por isso, apesar de nunca ter ido ao estádio vê-lo jogar.

Quem diria? Carioca, morando por 12 anos no
Rio de Janeiro, e nunca pus os pés no Maracanã. Nasci na época errada. Nasci quando freqüentar estádios de futebol já era sinônimo de arriscar a carteira, o relógio, a vida.

Por Luiz Ricardo Cobra, em 23 julho 12:09

Pedrão,

aguarde o próximo post :D , nele eu conto a minha história, mas adiantando, não me vejo torcendo para outro time. Minha família inteira torce para um único time e isso com certeza ajuda na hora da “decisão”.

quanto ao Maraca….tem de ir cara…..eu só conheço a estrutura, nunca assisti a uma partida, mas em 2014 com certeza eu resolvo isso na final da Copa.

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