Copa (independente) do Mundo

Não é novidade que o futebol junta inimigos e pára guerras. Creio que a maioria dos fãs de futebol conhecem a história da viagem do Santos de Pelé à África. Em 1969, no transcorrer da guerra civil na África, para que o time do Santos passasse em segurança entre Kinshasa e Brazzaville, as forças rivais declararam a interrupção da guerra. E os craques brasileiros puderam exibir seu futebol sem maiores transtornos.

Um fato mais recente foi o encontro na Copa da França, em 1998, entre as seleções dos Estados Unidos e do Irã. Essas nações são inimigas desde que a Revolução Islâmica em 1979 depôs o Xá Reza Pahlevi e colocou o Aiatolá Khomeini no poder. Antes da partida, os jogadores trocaram flores e tiraram fotos abraçados. E a manteiga derretida aqui chorou quando viu isso, é claro. A partida foi jogada em clima de paz e sem nenhum incidente, nem em campo, nem fora dele. O Irã venceu a partida por 2 a 1.

Cena que me fez chorar em 1998 – Foto: divulgação

Já que o futebol consegue interromper guerras, também dá espaço a nações não reconhecidas, ou que são independentes, mas não participam ainda de campeonatos oficiais pela FIFA.

Uma dessas copas alternativas às da FIFA é a Viva World Cup, que entrega o troféu Nelson Mandela de campeão a um associado da NF-Board, federação mundial não associada à FIFA e que abriga novas nações e representantes de minorias étnicas. Em 2009, foi jogada a terceira edição da Copa, que teve como campeã a seleção da Padânia.

Além da Padânia, sede de 2009, participaram da Viva World Cup o Curdistão Iraquiano, Lapônia (os primeiros campeões, em 2006), os Assírios (Arameans Suryoye), ilha de Gozo (e ilha de Comino, que ficam em Malta), e Occitânia (região francesa).

Time da Padânia, campeão de 2009

Vencendo o Curdistão Iraquiano por 2 a 1, a Padânia conquistou a segunda Viva Cup consecutiva (2008 e 2009); provavelmente, será a favorita dos próximos campeonatos. Mas que país é a Padânia? Na verdade, não é um país, ainda. Padânia é a reunião de regiões do norte e do centro da Itália, como Piemonte, Lombardia, Toscana e Úmbria, que pretende ter autonomia administrativa. Essa reunião regional, apesar de suas origens políticas extremistas (que flertam com o fascismo), participa de um torneio cuja tônica é justamente a diversidade. Ironia que só o esporte proporciona.

Para rivalizar com a Viva World Cup, surgiu a ELF Cup, organizada pela Federação do Chipre do Norte, e que conta com alguns ex-filiados da NF-Board. Chipre do Norte iria sediar a Viva World Cup de 2006, mas a Occitânia ficou com as honras, o que fez Chipre do Norte se retirar do campeonato e oferecer a cobertura de estadias e outras despesas para as seleções que jogassem seu próprio campeonato. Oito seleções participaram: Quirguistão, Zanzibar, Gagaúzia, Groenlândia, Criméia, Tadjiquistão, Tibete, além do Chipre do Norte.

Os proibidos do Tibete

O time do Tibete tem o apelido de “Os Proibidos” (The Forbidden). Não é à toa, sua luta por independência ocorre também nos gramados. Para participar de uma outra copa independente, a FIFI Wild Cup, os tibetanos enfrentaram a embaixada chinesa na Alemanha, que solicitou a retirada do time do campeonato, e a FIFA, que se disse competente para acabar com o torneio. Mas o Tibete foi em frente, e apesar das goleadas sofridas, participou também de uma Viva World Cup.

A FIFI Wild Cup foi realizada paralelamente à copa de 2006 na Alemanha, e a sede foi… A Alemanha! O torneio inaugural foi organizado pela FIFI (Federação Internacional de Futebol Independente) em conjunto com a diretoria do Sankt Pauli, clube de Hamburgo que disputa a Segunda Divisão alemã, e que é muito alternativo. Seu presidente é ativista gay e atua no teatro vestido de mulher, seu uniforme é marrom, os torcedores usam roupas de heavy metal e bandeiras de Che Guevara e o clube fica na zona de prostituição da cidade. Segundo matéria da Revista Placar de outubro de 2009, a presidência do St. Pauli declarou persona non grata quem manifestasse preconceito a minorias e se posicionou como o primeiro clube alemão de esquerda, antirracista e pró-homossexuais.

A próxima FIFI Wild Cup será disputada na Groenlândia, junto à copa do mundo da FIFA de 2010. Será interessante conferir a galera tentando se virar em campos nevados.

Mais uma copa alternativa, a primeira Europeada, em 2008, contou com 20 times, mas foi feita para as nações de minorias autóctones da Europa. Com os Tiroleses do Sul como campeões inaugurais, a Europeada aguarda seu futuro.

Enquanto essas nações não se firmam como países independentes, seus times de futebol levam suas identidades mundo afora, com ajuda desses recentes campeonatos alternativos.

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Publicado em 19 outubro , 2009 por Juliana Garcia Sales

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